UNIFESP 2017 – Questão 19

Linguagens / Português
Leia o trecho do conto “A igreja do Diabo”, de Machado de Assis (1839-1908), para responder a questão.
 
Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula* beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária1, com uma voz que reboava2 nas entranhas do século3. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos4. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele5 e desmentir6 as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
– Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites
sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens7. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai8. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro9*, fazei dele um troféu e um lábaro*, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes10, congregar, em suma, as multidões ao pé de si11. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação12. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada13.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras14, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas15, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a
Ilíada16: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu”... [...] Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas17; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo
incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência18, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas19 e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude20. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muito homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade*. Um casuísta* do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio
que se nega ao caráter, à porção moral do homem?
Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito21 social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
(Contos: uma antologia, 1998.)
 
cogula: espécie de túnica larga, sem mangas, usada por certos religiosos.
desdouro: descrédito, desonra.
 lábaro: estandarte, bandeira.
esgalgado: comprido e estreito.
venalidade: condição ou qualidade do que pode ser vendido.
casuísta: pessoa que pratica o casuísmo (argumento fundamentado em raciocínio enganador ou falso)
 
No último parágrafo, o principal recurso retórico mobilizado pelo Diabo em sua argumentação a respeito da venalidade é
a) a repetição.
b) a interrogação.
c) a citação.
d) a hesitação.
e) a periodização.

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