UERJ 2008 – Questão 10

Linguagens / Português / Língua e Funções / Interpretação de texto
As esperanças
 
Uma esperança entrou em meu quarto1. Trouxeram-me o pequeno corpo vegetal, quase imobilizado pelo medo, como se fosse um sinal de próxima vitória minha. Pedi que devolvessem a “esperança” ao seu meio, que a salvassem imediatamente. Depois, fechei os olhos e revi o mundo de esperanças que me veio acompanhando da infância até aqui: os relvados de outrora, e o reino de grilos, das “esperanças”, dos louva-a-deus. Sobre o meu peito se estendeu uma espécie de campo verde, longo, contínuo. Tive a sensação de que fora sempre uma árvore e que me percorriam pequenos corpos vegetais.
(...)
Começo a brincar com a palavra esperança2. “Já não é  mais a hora de esperança3”, digo-me eu. “Esperança em  quê?4” Ouço então uma voz que me diz: “Encontrarás, do outro lado da Terra, uma grande e amena extensão relvada, onde poderás dormir com a tranquilidade que nunca encontraste aqui. As ‘esperanças’ velarão pelo teu sono e pelo ritmo de todas as coisas. Quando se acaba o mundo de desesperanças, se inicia o tempo das esperanças. Não demores em dormir o teu sono final. Não insistas em ficar pensando insone. Do outro lado há um sono, como um pálio*  aberto5. Dorme-se quando se espera, quando há esperança; ou quando a vida se tornou idêntica à própria morte, e as ‘esperanças’ bóiam nas águas estagnadas e são corpos defuntos conduzidos ao léu, ao capricho dos ventos espessos”.
Mas a “esperança” que entrou no meu quarto falou-me também com insistência, em presença terrestre, em vitória neste mundo, em recuperação floral, em sol, em leite, em campo, em olhos, em mel, em estradas, em encontros julgados já impossíveis e que inesperadamente se realizam, quando tudo convidava a desesperar.
Meu Deus - a “esperança” me chamou a atenção para o mundo terrestre, mas não para o reino em que vivi até agora e onde acabei apenas existindo, vergado pelo tédio, pelo “já visto”, pelo desgosto de mim mesmo e dos outros. A “esperança” trouxe-me a imagem de dias verdes e leves, das coisas tocadas pela poesia. O olhar de sono depois das vindimas*; as mãos álacres* e febris; o riso das malícias inocentes. Oh! Este mundo é o mundo em que habito, mas não é mais o meu mundo.
Uma pálpebra longa e dolorosa começa a cerrar-se por sobre todas as coisas belas, primaveris. Através das janelas fechadas entra um fio de sol de fim de tarde. Quem bate no peito e reza no coro de vozes longas? É o vento, é a noite, é a montanha habitada pelos espíritos. A pequena “esperança” é o contrário de tudo isso. É o espírito inocente. É a pequena vida. É o sorriso. É tudo ou nada.
De quando em quando, antigamente, achávamos uma “esperança” parecida com o pedaço de uma folha de árvore6. Leve, disfarçada, quieta, dissimulada. “Esse bicho é um louva-a-deus. E de parreira...”
Agora veio a sombra. Mas a esperança está cantando. Deus meu, que voz triste essa que me convida a viver!
 
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDTMey, Leticia et. al (org). Saudade  de mim mesmo:
uma anotologia de prosa de Augusto Frederico SchmidtSão Paulo: Globo, 2006

 
Vocabulário:
*pálio – manto
*vindimas – colheitas das uvas
*álacres – entusiasmadas, alegres


 
Para o enunciador, a falta de esperança relaciona-se à descrença no mundo: “Já não é mais a hora de esperança”,  digo-me eu. (ref.3)
O fim dessa descrença está associado, no texto, à idéia de:
a) fuga.
b) rebeldia.
c) otimismo.
d) contemplação.

Veja outras questões semelhantes:

UNESP (julho) 2014 – Questão 13
A oração como uma emanação mesma do defunto sugere que a) a alma do defunto ainda pairava sobre o corpo. b) o odor do defunto era mais enjoativo que o das flores. c) todos os odores pareciam provir do cadáver. d) as pessoas confundiam seu próprio suor com os odores da sala. e) o falecido apresentava um odor muito desagradável.
UERJ 2012 – Questão 16
According to some authors, a memoir is how one remembers one’s own life; an autobiography is history, requiring research, dates and facts. In relation to the author’s life, the text Happiness can be characterized as a memoir especially because of the presence of: a) factual reports b) fictional recounts c) detailed descriptions d) personal recollections
UERJ 2008 – Questão 21
A new outlook on life is manifested in the song. In stanzas 2 and 3, the words proclaim intentions of: a) recovery and pressure b) approval and confidence c) acceptance and perseverance d) awareness and commitment
UNIFESP port e inglês 2016 – Questão 12
O primeiro parágrafo permite identificar o lugar em que o pregador profere seu sermão, a saber, a) o mar. b) o sertão. c) a floresta. d) a aldeia. e) a cidade.
UERJ 2012 – Questão 3
"a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas." (ref.1) ...