UERJ 2012 – Questão 12

Linguagens / Português / Língua e Funções / Interpretação de texto
A palavra
Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito  − como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento − e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven − e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído  − talvez palavras de algum poeta antigo  − foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
RUBEM BRAGA PROENÇA FILHO, Domício (org.). Pequena antologia do Braga. Rio de Janeiro: Record, 1997
O episódio do canário traz uma contribuição importante para o sentido do texto, ao  estabelecer uma analogia entre a palavra do escritor e a música assobiada pela amiga.
A inserção desse episódio no texto reforça a seguinte ideia:
a) a intolerância leva o artista ao isolamento
b) a arte atinge as pessoas de modo inesperado
c) a solidão é remediada com soluções artísticas
d) a profissão envolve o artista em conflitos desnecessários
Esta questão recebeu 2 comentários

Veja outras questões semelhantes:

ENEM 2ªAplicação Linguagens e Matemática 2011 – Questão 123
TEXTO I ...
ENEM Digital Linguagens e Humanas 2020 – Questão 39
Disponível em: www.folhavitoria.com.br. Acesso em: 11 dez. 2017. O uso inusitado do jogo de caça-palavras nessa publicidade de um mercado hortifrúti leva à a) alusão a hábitos alimentares saudáveis. b) inclusão de carne em uma dieta alternativa. c) construção de uma lista de compras lúdica. d) ênfase na carne para uma alimentação balanceada. e) quebra de expectativa em relação aos itens de um hortifrúti.
UERJ 2014 – Questão 22
Cientistas da Nasa recalculam idade da estrela mais velha já descoberta ...
Base dudow 2000 – Questão 4
Segundo o texto, “o verdadeiro vilão da história” é (são): a) o aquecimento global. b) as emissões de gás carbônico. c) a formação de nuvens. d) as doenças respiratórias. e) as barreiras para a energia do sol.
ENEM 1ºAplicação 2023 – Questão 44
Disponível em: www.facebook.com/minsaude. Acesso em: 13 jun. 2018. Essa campanha publicitária do Ministério da Saúde visa a) divulgar um conjunto de benefícios proporcionados pela amamentação. b) apresentar tratamentos para infecções respiratórias em bebês. c) defender o direito das mulheres de amamentar em público. d) orientar sobre os exercícios para uma boa amamentação. e) informar sobre o aumento de anticorpos nas mães.